terça-feira, 16 de novembro de 2010

Adormece

A tristeza,
a dor,
arrastam o sono para um lugar
onde a morte habita o sonho.
Sem pressa,
num estertor,
adormece.

Sinais

Não sei a razão porque tirei a foto da matrícula de um carro que não me dizia nada.
A luz que me rodeava, sim, a claridade daquele céu na Charneca era sublime.
Vinda de céus coados em cinza foi com sabor que reencontrei o azul.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

Bundi

Em Bundi percorri as ruas apoiada numa bengala e deliciei-me.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Jeffrey Stockbridge

Castanhas assadas

Ontem a minha colega estava com um desejo por castanhas que me contagiou.
Lembrei-me das sopas de feijão no Bairro do Arco do Cego em Lisboa, quando estava de esperanças, e arrancámos rua do Conservatório acima, até ao lugar onde poderia estar o carrinho do vendedor de castanhas.
Não estava, nem ali nem no fim da rua.
Regressámos a rir; falei-lhe de mim, do desejo pela tal sopa de feijão e enquanto gargalhava, lembrei-me do meu pai.
Hoje, quando fomos almoçar, lá estava um carrinho na rua e ao concordarmos em passar por lá na volta, penso que ambas chegámos a duvidar de que o iríamos encontrar, e rimos.
Estava, e ainda ficámos, enquanto as castanhas assavam, dez minutos à conversa com ele, um alentejano de Santiago do Cacém, que há cinquenta anos está em Portimão, a vender castanha assada desde os doze e a quem vêm, de propósito, buscá-las, primorosamente assadas.
Um descuido nos últimos segundos, faz a diferença entre uma castanha e um pedaço de carvão.
E estas estavam no ponto, até no sal, o que me leva a suspeitar de que a ASAE ainda não se lembrou deste negócio sazonal.
Em conversa, apercebi-me que também tinha conhecido o Zé Vilhena do Cercal, onde se comia uma sopa e, por vezes, uma galinha divinais, quando as batatas fritas e os ovos estrelados que devorávamos no Zé Manel na Ilha de Porto Covo, j á não confortavam.
Entretanto, ia-nos dando a provar as castanhas, eu a perguntar se as congelava, e ele a responder-me que agora vão para o frio, mas antigamente, por esta época, enterrava-as em areia seca, e vendia-as em Janeiro.
Não tinha notas e deu-nos o troco em moedas e "dois palmos de castanhas," como ele disse, não embrulhadas em jornal, mas em papel pardo que também se molda e guarda o calor.
Vai tudo da mão que entrega, e da que recebe...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Green Delhi"

Cheguei a Delhi estavam a decorrer os "Commonwealth Games", rodeados de um enorme aparato policial, com polícias atrás de barricadas, nas ruas, e estacionados em todos os lugares públicos.
Havia faixas só para os autocarros dos Jogos, que alguns tentavam ocupar e que muitas vezes se arrependiam.
Fui sempre abordada, na esperança de me ouvirem responder que a razão da minha ida a Delhi tinha sido para assistir aos Jogos, e sempre se desiludiram quando lhes respondia que não.
Nos concertos, ao fim do dia, não me apercebi de outro tipo de público que não fosse o que parecia ser o habitual.
Delhi estava a viver o fascínio por si mesma; inundada de cartazes, onde se lia" Green Delhi".
Ironia, numa cidade onde o verde se vê cinza e o azul desmaia.
Onde se varre meticulosamente os espaços que se habita, e se coloca o lixo em monte para ser utilizado durante o dia pela mão, ou boca, que por lá passe. E este ritual, repete-se diariamente com o monte a crescer, a espalhar-se e a confundir-se com os indigentes, que por lá se arrastam.
A poluição pesa na respiração e tinge a pele.
É proibido fumar em Delhi.
Há imensos parques verdes, herança dos ingleses, onde a minoria que tem acesso, se passeia ao passo que lhe convém.
Delhi entreabriu a porta, e eu entrei a medo. A cor era cinzenta e, o cheiro pesado, entranhava-se.

Ravi Shankar e Philip Glass

Amritsar

Foi difícil apreender Amritsar; a quietude e fascínio que aquele lugar me inspirava nas projecções que fui fazendo nas imagens que sorvia, faltava.
Faltava a essência, ela existe, mas eu não fui capaz de a captar.
Mesmo depois de ter estado naquela imensa fila de pessoas, que aguardavam pacientemente a sua vez para entrar no Templo, com as oferendas dentro de folhas secas, lindíssimo.
Fiquei-me pela grandiosidade daquele espaço, lentamente, onde milhares de pessoas se cruzam e onde encontrei serenidade.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Rostos da India

Lembro-me de me aperceber destes dois rostos, lindíssimos, no meio de tantos outros e de os ter fixado.
Impressionou-me a lonjura daquela expressão.
Curioso, os bébés na Índia não chorarem. Franzinos e colados às mães, até terem força para se bastarem; a má nutrição não os deixa protestar, estão letárgicos.
No mercado de Bundi, esta vendedora surpreendeu-me o olhar, e fixou-me sempre com a mesma expressão.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Um mar

Cheguei de um poço,
onde não havia mar.
Bebi a névoa que o cheiro trazia,
em cestos de areia.
Cheguei e vi o mar,
Um mar,
contigo_____

sábado, 25 de setembro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Gloria Gaddis

Gloria Gaddis

Entre dois lugares

Hoje pela tardinha, já amornecia, encostei-me a uma parede cálida, a ver passar figuras, que pareciam saídas de um filme antigo.
Abrigada numa ruela estreita, entre prédios altos e paredes brancas, uma escola de música, um café e um teatro.
As janelas estavam abertas, com miúdos a versejarem as teclas,
simples, delicioso.
Detive-me numa mulher frágil, que anda sempre por ali, serigaita e ondulante, a deslizar pela calçada, e a olhar para todos os lados; fui-a perdendo de vista,
Alonguei-me no olhar e, segui o dono duma loja, que vende roupa hilariantemente cara, e que subia a rua, indiferente, de braços estendidos, com o seu ar símio.
Lembrei-me da loja no Centro, em Carnaxide. Da dona, uma mulher, inchada, menopausica, imagino. Insuportável, nas suas tiradas histéricas.
Vestia sempre, túnicas esvoaçantes, com pretos e cores vibrantes, que distraíam as misérias da carne. As clientes, eram mulheres que procuravam tamanhos grandes, que se cobrem de panos e se maquilham furiosamente.
Vi sair do café, o dono da sapataria, num passo apressado e cabisbaixo, em direcção à loja. Sempre,
uma imagem inquieta.
Lembrei-me de quando passo por ali, e não o vejo à porta, de mãos atrás das costas, num sorriso engelhado, que culmina num esgar, e olho para dentro da loja e não o vejo, interrogo-me sempre por onde andará.
Talvez neste café; fica ali tão perto, e os clientes escasseiam cada vez mais.
A música, entretanto deixou de se ouvir, e as imagens desvaneceram-se, a calçada ondulou até se ajeitar sozinha,
em casa.

sábado, 18 de setembro de 2010

A eternidade é errante

Era sempre assim, quando varria o quintal.
Atirava um balde cheio de água e sabão, e esfregava a pedra com uma vassoura de cerdas rijas.
Um prazer, ver as pedras secarem ao sol, ou, à tardinha com laivos de ouro e rosa.
Estou a aprender que a eternidade é errante.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Viagem

Sentia Orccha como um fascínio, os rostos, a cor do Rajashtan, a pedra, os papéis.
Coisas que levava para a cama, numa amalgama de sentimentos.
Ela e a viagem.

"Elefanta em pontas"

Transfigurada pela musicalidade de Yann Tiersen, deparei-me com esta caricatura do sec XIX, de George Cruikshank, uma elefanta em pontas...,
curioso.

Laxma Goud

Laxma Goud na Aicon Gallery

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Saad Qureshi

Encontrei aqui

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pedras

As pedras são um fascínio,
Minúsculas, pesadas, ou portáteis.
As que pertencem à praia, trazidas pelas marés que as soltam, vindas de outros lugares, outros cheiros.
As do campo, terra endurecida, mostram-se com as cores e a luz dos lugares que habitam.
As das calçadas,
antigas, lustrosas, difíceis, apelativas.
Memória definitiva, do tempo e dos lugares, por onde passamos.

The Swell Seasons

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Silves

Silves ao entardecer é um deslumbramento. São de ouro, os tons que enrubescem as pedras e entram pela noite plácida, acolhendo cheiros doces, inequívocos, enquanto subimos a calçada numa toada antiga.
Às minhas origens.
Ruelas, casas baixas, pés descalços, que me lembro, deslizarem nas pedras reluzentes de séculos.
O cheiro dos figos e as amêndoas, em tabuleiros na açoteia.
O chão.
E o castelo, a volumetria da Sé, a inclinação da calçada, as casas renascidas, as ruínas, memórias.
Xelb

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Lisa Ekdahl

Monchique

Voltei a Monchique, para descer às Caldas, e reviver, as sanduiches de presunto, refrescadas com as laranjadas da época, que sabiam a laranja descascada.
Estive nas Termas, onde o antigo hotel está a funcionar, com bom ar, e as casas em estilo moçarabe, num romantismo que se cola ali na perfeição, e lhe conferem uma dignidade que convida ao silêncio, um silêncio onde algum som de Tord Gustavsen podia pertencer.
Seria sublime
Ia curiosa, sendo este um dos lugares onde a minha imaginação bordeja, quando me lembro dos passeios a Monchique com os meus pais, ansiosa por descer àquele sítio que os meus olhos adivinhavam, assim...
Subir até à Fóia.
1000 mts de serra, onde o olhar se alonga, desde o Cabo de São Vicente até à Serra da Arrábida
Seria um deslumbramento, se a neblina não existisse.
Mas Monchique é assim.
As coisas não estão ali à nossa espera.