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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012



                                                                       Prashant Miranda
Era uma ideia que pairava;
devia à vida,  mais de trinta anos.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

A bruxa

Que vida estranha.
Pensava ter fechado a porta ao vento,
que o dia estava acabado.
A vida é uma surpresa, pensava.
Surreal, no infinito.
Estava no quintal, preparava-se para a limpeza da cozinha, quando aquela mulher assomou à cancela em ar de choro, a chamar por ela.
Olhou, e viu uma pessoa envelhecida, de cabelos curtos, grisalhos, e nas mãos tortas as chaves de um carro, que enrolava frenéticamente  nos dedos.
Aproximou-se, sem a reconhecer.
Chorava enquanto lamuriava uma história confusa;

foi por ali fora até dizer que não tinha onde dormir,
que  a Segurança Social a tinha posto fora de casa, por maus tratos ao marido.
Perguntou-lhe então onde morava, porque é que tinha ido ali ter, porquê a ela?
Foi quando então se deu conta.
Aquela mulher, que enrolava as chaves freneticamente, era a "bruxa" da casa do alto!
A vida é um mistério.

Lucian Freud

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Castanhas assadas

Ontem a minha colega estava com um desejo por castanhas que me contagiou.
Lembrei-me das sopas de feijão no Bairro do Arco do Cego em Lisboa, quando estava de esperanças, e arrancámos rua do Conservatório acima, até ao lugar onde poderia estar o carrinho do vendedor de castanhas.
Não estava, nem ali nem no fim da rua.
Regressámos a rir; falei-lhe de mim, do desejo pela tal sopa de feijão e enquanto gargalhava, lembrei-me do meu pai.
Hoje, quando fomos almoçar, lá estava um carrinho na rua e ao concordarmos em passar por lá na volta, penso que ambas chegámos a duvidar de que o iríamos encontrar, e rimos.
Estava, e ainda ficámos, enquanto as castanhas assavam, dez minutos à conversa com ele, um alentejano de Santiago do Cacém, que há cinquenta anos está em Portimão, a vender castanha assada desde os doze e a quem vêm, de propósito, buscá-las, primorosamente assadas.
Um descuido nos últimos segundos, faz a diferença entre uma castanha e um pedaço de carvão.
E estas estavam no ponto, até no sal, o que me leva a suspeitar de que a ASAE ainda não se lembrou deste negócio sazonal.
Em conversa, apercebi-me que também tinha conhecido o Zé Vilhena do Cercal, onde se comia uma sopa e, por vezes, uma galinha divinais, quando as batatas fritas e os ovos estrelados que devorávamos no Zé Manel na Ilha de Porto Covo, j á não confortavam.
Entretanto, ia-nos dando a provar as castanhas, eu a perguntar se as congelava, e ele a responder-me que agora vão para o frio, mas antigamente, por esta época, enterrava-as em areia seca, e vendia-as em Janeiro.
Não tinha notas e deu-nos o troco em moedas e "dois palmos de castanhas," como ele disse, não embrulhadas em jornal, mas em papel pardo que também se molda e guarda o calor.
Vai tudo da mão que entrega, e da que recebe...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Artur Alvarez Fernandéz

De pequeno quixera
ter aprendido a ler
en livros acabaos de fer
por sabios vivos
por sabios viejos,
qu'a aos domingos vistam
de traxe de gala d'os quincayeiros.
Libros que me expliquem como
nel camín recto à comodidá,
tan incomodo me sinto.
Libros nos qu'entendas
que ser parte del rabaño
namás ya quita la fame
a quem vive vexetando
Artur Alvarez Fernández, Lendo a Vida
Edições Suburbia, Gijon 2009