sábado, 7 de maio de 2011

Queimar o tempo



Porque parei à porta da padaria a fumar um cigarro, compulsivamente, enquanto pedia que me embrulhassem duas bolas de berlim, a empregada contou a história;
Deixou de fumar porque quis, foi vontade dela; sempre que o filho e o marido, que já tinham deixado de o fazer, a pressionavam para fazer o mesmo, irritava-se, pegava noutro cigarro.
Contou-me que tem  uma fragilidade no pulmão e sempre que ia ao o médico era a mesma história.
Até que naquela noite,  sentiu uma falta de ar insistente e dolorosa; o coração pulsava vigorosamente e depois parava, estremecia... 
Durou horas.
No outro dia, deitou o maço de cigarros fora, e nunca mais fumou.
Sente-se muito melhor
A irmã, não, não consegue deixar de fumar. 
Ela faz com a irmã o que o marido e o filho faziam com ela, tem noção disso, mas não consegue deixar de o fazer.
Começou por me dizer que há pessoas que têm força de vontade, mas a irmã não. 
São dois maços por dia
Não se pode condenar, apontar, sem se saber a história, disse:
- Ela é muito nervosa, já esteve internada.... 
é o filho, com dois anos sofreu queimaduras em 80% do corpo. Fizeram enxertos de pele de cadáver que veio de fora, operações plásticas, mas é um menino queimado. 
Se a senhora visse os olhos dele...A minha irmã vive no terror da aproximação das datas dos exames e dos hospitais.
Já se tentou suicidar. Quando vou lá a casa aos fins de semana para a ajudar a fazer o almoço, está sempre a desaparecer para fumar. Acabo eu por fazer o almoço sozinha, não me importo.
Quando nos sentamos à mesa, come bem, pausadamente, olhar calmo, isso é. Mas no fim começo a perceber a ansiedade em se  levantar para ir fumar outro cigarro.
Sou eu que lhe chego a dizer, levanta-te e vai lá fumar.
A senhora vê, para a minha irmã é muito difícil.
Entretanto já tinha apagado o cigarro há muito e fiquei a pensar nos dois confortos daquela mulher:
Queimar o tempo.



quarta-feira, 4 de maio de 2011

Dia claro

Dia claro,   veleiro no horizonte,    olhar apaziguado

terça-feira, 3 de maio de 2011

Quintal

Um caminho de relva está atapetado de flores brancas, deliciosas. 
Gosto assim,interrompe a solidão da relva.
Contornei o quintal e apercebi-me da roseira, galhos e botões, amarfanhados pela malva da mesma cor de sangue que tinge aquele canto e se estende por todo o lado; cortei ramos e deixei as plantas sorver o ar, sem nesgas. 
Aproximei-me  das folhas da pequena roseira que está ao pé do portão, devoradas,pacientemente, por pequenas lesmas,  verde folha. Fui a correr buscar hortelã e louro e batizei a roseira com lascas das folhas que ia desfazendo.
Talvez não apreciassem aquele cheiro intenso
Sentei-me no chão à espera que as ditas se afastassem. 

O oposto. 

Não se foram embora e lentamente já se acercavam outras, todas verde folha.



Decidi-me a acabar com elas. Sem desprazer, amanhã vou até à farmácia falar da doença e pedir a cura.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Piu-Piu

A Piu-Piu é uma senhora.
Autónoma, persistente na sua lucidez de cadela, consegue sempre dar um jeitinho.
Ciumenta, sem querer demonstrar fraqueza, impõe-se e, frequentemente alcança o objectivo. Se não lhe agradar o incómodo, afasta-se, mas não sem antes demonstrar o seu desagrado..
É uma princesa, uma macaca, uma malina.
Vira-nos o o rabo, sacode-se toda, pula para a cisterna e aí,
domina.
É a minha Piu-Piu :)

sábado, 9 de abril de 2011

Laura

A Laura tem oito dias.
Uma menina esperada e amada por todos os que a rodeiam de coração.
Que a vida te seja leve, menina linda

sexta-feira, 1 de abril de 2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

Kareem Rizk

O ar sabia a doce

No caminho,
o ar sabia a doce.
O horizonte,
estendia-se em carne, quase viva.
Esteve para seguir até ao mar da capelinha.
Sentir o cheiro, olhar as rochas soberbas, acesas pelo entardecer.
Sorriu, quando seguiu em frente.
Lembrou-se do jasmim.
Em casa, o ar sabia a doce.