sábado, 11 de dezembro de 2010

Sem pressa

Sem pressa, entregou-se à vida.
Por caminhos de pedra, resgatou o sossego que o tempo ímpar lhe concedia.
Sem pressa....,

Alex Katz

Bundi

Chegar a Bundi à noite com o Baba, tinha sido um oásis para o olhar já entumecido por cores e rostos acolhedores; pela pedra do Rajastão.
O haveli onde tinha ficado, prolongou essa sensação de sonho já vivido.
Lembrava-se do terraço, da sensação de estar em sítio nenhum e de, no entanto, sentir que podia pertencer àquele lugar, onde havia macacos que entravam pela cozinha e roubavam comida, e a respiração se soltava.
Estava debruçado sobre um lago decadente, renovado pela modernidade de um sikh. Os empregados, rapazes que ia buscar ao campo e ensinava a trabalhar por meia dúzia de rupias, não tinham direito a férias. Dois dias por ano, para irem à terra, a casas que já não reconheciam.
A justiça social tem vários rostos, mas, aqui, tinha sentido correcção entre estas pessoas.
A descida das ruas até ao mercado, ladeadas por casas sombreadas por azuis e brancos; pedras seculares trabalhadas por mãos que sabiam, tinha sido uma luxúria para os sentidos.
O tempo parou e não queria sair daquele lugar onde os caminhos a abraçavam e o olhar se dissolvia.
O mercado, as cores os rostos a miséria num lugar que a reconhece sem a escorraçar, foi apaziguante.
Finalmente, a cor.

A chegada

Não via nada.
Saiu por aquela porta e sorveu cores e cheiros que não conhecia.
Num desconforto, seguiu pelas ruas sujas e cinzentas onde a verdura não sobressaia.
Uma profusão de sentimentos enquanto o rickshaw se embrenhava pela cidade.
Primeiro foi-se apercebendo das pessoas. Estendidas pelo chão, confundiam-se com macacos e cães que se alinhavam nos muros decadentes. Pedaços do mesmo lixo que enchia a cidade.
De manhã, na cobertura da pensão, avistavam-se casas de cimento, e paredes de tijolo, muitas delas, esquecidas da cor, adensadas pelo ar pesado.
Não havia nada para os sentidos adormecidos, a não ser a escuridão e miséria que avistava;
não sabia nada.
Faltava a cor que a claridade devolve aos objectos, o ar que nos permite sorver os sons.
Delhi pairava num deserto de cor, submersa pela miséria decadente.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ismael Lo

Não vejo palavras nas cores;
ouço cores nos sons das palavras

domingo, 5 de dezembro de 2010

The Genesis

Mariquinha

Chegava sempre a sorrir, de mansinho, com aquele rito na boca que realçava a expressão de um olhar prazenteiro por detrás de uns óculos de massa, tão pretos como o cabelo, apanhado num enorme rabo de cavalo.
Lembro-me da primeira vez que a vi chegar, suavemente, incógnita, com essa mesma expressão.
Passaram quatro anos, e a Mariquinha contou-me do seu jeito a infância, que quer longe, da apanha do arroz com lama até à cintura, do casamento forçado pelos pais com um homem mais velho, da sua partida, da luta para dar de comer a três filhos. De sair às três da manhã e de chegar a casa perto da meia noite. De os ver chorar com fome e de não poder fazer nada.
Marcas que aquele corpo frágil acolheu, sem rancor.
É a minha companheira das grandes faxinas.
Hoje dourou-me a casa com a ciência dos seus bons tratos.
O cheiro da cera nas tábuas do chão e nos móveis, os vidros limpos, ofereceram-me o delicioso conforto de uma casa no campo, onde a chuva não importa e o tempo se desenrola pejado de imagens saborosas.
É bom estar numa casa que a Mariquinha trata como se fosse sua, com aquela expressão de quem sabe mas não tem o dom da palavra.
É assim a Mariquinha, capixaba do Espírito Santo, terra de gente que emigrou e vê-se acossada em guetos relacionais.
Somos fechados, desconfiados, e no baile, a que já foi três vezes, encontra homens de que não se lembra, não servem. Telefonam-lhe com insistência mas ela não quer.
Um amigo, um companheiro e entretanto, paira na vida com o dom de espalhar bem estar aos que a rodeiam sem se fazer sentir nem ocupar espaço.
Mas aconchega.
A casa sorri, irradia de claridade e frescura quando vamos fazer a ronda final, com os brilhos a reflectirem-se na sua expressão.
São seis horas, tenho as migas a crestar lentamente e a Mariquinha espera o filho que há muito lhe agradeceu ter sido a mãe que foi e de o ter ajudado a ser o homem que é.
O outro filho também lhe diz não ter saudades do pai, ele tem a mãe que é o seu pai.
Não sabe doutro jeito.
É assim a Mariquinha

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Shelby Lee Adams

Gosto do olhar de Shelby Lee Adams, pode ser controverso,
mas sabe ver.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Clemens Habicht

Sempre que saía da escola, esgueirava-se por aquele portão, até sentir o horizonte onde havia letras.
Era esse o segredo.
Aí, sentia-se bem, num mundo sem cor nem pessoas, onde a inexistência a levava longe, lá muito longe, onde o olhar repousa no tempo e a solidão não cabe.

domingo, 28 de novembro de 2010

O caminho

Os passos ritmavam o andar.
Tinha deixado as portas abertas .
Hoje, achou que o lixo ficava muito longe e que a casa estava aberta e os cães lá encima.
Não ladravam, e o lixo era longe, o saco estava pesado.
Quando lá chegou a arfar, largou o saco e retomou o caminho,
que não reconheceu, até chegar a casa.

sábado, 27 de novembro de 2010

Objectos

Fascinam-me os objectos, a identificação do gosto.
Não os desejo, a não ser pelo prazer que me dão quando os descubro, sem pressa.
Como estes que encontrei no Etsy, e que me acariciaram o olhar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Rostos da India

Fiquei cativada com aquele olhar que, como eu, se apoiava numa bengala e fumava bidis.
Partilhámos o thai enquanto outros se iam juntando a observar duas mulheres que vinham de um País muito pequeno e que também fumavam bidis.
Boa disposição num lugar algures no Rajastão, onde me apercebi que também havia um médico e um barbeiro.
Um luxo.

Penguin Cafe Orchestra

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Adormece

A tristeza,
a dor,
arrastam o sono para um lugar
onde a morte habita o sonho.
Sem pressa,
num estertor,
adormece.

Sinais

Não sei a razão porque tirei a foto da matrícula de um carro que não me dizia nada.
A luz que me rodeava, sim, a claridade daquele céu na Charneca era sublime.
Vinda de céus coados em cinza foi com sabor que reencontrei o azul.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

Bundi

Em Bundi percorri as ruas apoiada numa bengala e deliciei-me.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Jeffrey Stockbridge

Castanhas assadas

Ontem a minha colega estava com um desejo por castanhas que me contagiou.
Lembrei-me das sopas de feijão no Bairro do Arco do Cego em Lisboa, quando estava de esperanças, e arrancámos rua do Conservatório acima, até ao lugar onde poderia estar o carrinho do vendedor de castanhas.
Não estava, nem ali nem no fim da rua.
Regressámos a rir; falei-lhe de mim, do desejo pela tal sopa de feijão e enquanto gargalhava, lembrei-me do meu pai.
Hoje, quando fomos almoçar, lá estava um carrinho na rua e ao concordarmos em passar por lá na volta, penso que ambas chegámos a duvidar de que o iríamos encontrar, e rimos.
Estava, e ainda ficámos, enquanto as castanhas assavam, dez minutos à conversa com ele, um alentejano de Santiago do Cacém, que há cinquenta anos está em Portimão, a vender castanha assada desde os doze e a quem vêm, de propósito, buscá-las, primorosamente assadas.
Um descuido nos últimos segundos, faz a diferença entre uma castanha e um pedaço de carvão.
E estas estavam no ponto, até no sal, o que me leva a suspeitar de que a ASAE ainda não se lembrou deste negócio sazonal.
Em conversa, apercebi-me que também tinha conhecido o Zé Vilhena do Cercal, onde se comia uma sopa e, por vezes, uma galinha divinais, quando as batatas fritas e os ovos estrelados que devorávamos no Zé Manel na Ilha de Porto Covo, j á não confortavam.
Entretanto, ia-nos dando a provar as castanhas, eu a perguntar se as congelava, e ele a responder-me que agora vão para o frio, mas antigamente, por esta época, enterrava-as em areia seca, e vendia-as em Janeiro.
Não tinha notas e deu-nos o troco em moedas e "dois palmos de castanhas," como ele disse, não embrulhadas em jornal, mas em papel pardo que também se molda e guarda o calor.
Vai tudo da mão que entrega, e da que recebe...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Green Delhi"

Cheguei a Delhi estavam a decorrer os "Commonwealth Games", rodeados de um enorme aparato policial, com polícias atrás de barricadas, nas ruas, e estacionados em todos os lugares públicos.
Havia faixas só para os autocarros dos Jogos, que alguns tentavam ocupar e que muitas vezes se arrependiam.
Fui sempre abordada, na esperança de me ouvirem responder que a razão da minha ida a Delhi tinha sido para assistir aos Jogos, e sempre se desiludiram quando lhes respondia que não.
Nos concertos, ao fim do dia, não me apercebi de outro tipo de público que não fosse o que parecia ser o habitual.
Delhi estava a viver o fascínio por si mesma; inundada de cartazes, onde se lia" Green Delhi".
Ironia, numa cidade onde o verde se vê cinza e o azul desmaia.
Onde se varre meticulosamente os espaços que se habita, e se coloca o lixo em monte para ser utilizado durante o dia pela mão, ou boca, que por lá passe. E este ritual, repete-se diariamente com o monte a crescer, a espalhar-se e a confundir-se com os indigentes, que por lá se arrastam.
A poluição pesa na respiração e tinge a pele.
É proibido fumar em Delhi.
Há imensos parques verdes, herança dos ingleses, onde a minoria que tem acesso, se passeia ao passo que lhe convém.
Delhi entreabriu a porta, e eu entrei a medo. A cor era cinzenta e, o cheiro pesado, entranhava-se.

Ravi Shankar e Philip Glass

Amritsar

Foi difícil apreender Amritsar; a quietude e fascínio que aquele lugar me inspirava nas projecções que fui fazendo nas imagens que sorvia, faltava.
Faltava a essência, ela existe, mas eu não fui capaz de a captar.
Mesmo depois de ter estado naquela imensa fila de pessoas, que aguardavam pacientemente a sua vez para entrar no Templo, com as oferendas dentro de folhas secas, lindíssimo.
Fiquei-me pela grandiosidade daquele espaço, lentamente, onde milhares de pessoas se cruzam e onde encontrei serenidade.