domingo, 16 de janeiro de 2011

Too old to rock and roll, too young to die

Coisas

Quando eu morrer ponham as cinzas onde quiserem,
ou vos der jeito.
E se não quiserem, não tem importância.
Fui passando por algumas mortes e lidando com a inutilidade e o peso das coisas que fazem parte do mundo de cada um.
Coisas.
Nada para os que ficam; a vida, para quem partiu.
Quero viver o que a vida respira, e não deixar para trás o peso da minha existência,
se for capaz.

O rosto da Índia

Na Índia, assisti a algumas praticas que constituem por si, verdadeiras paixões.
Não existe templo, rua, canto, casa, onde não se veja alguém debruçado a varrer metodicamente. Figuras, algumas lindíssimas, que se debruçam ao ritmo de vassouras deslizantes.
Deliciavam-me essas imagens.
Sempre gostei de varrer; de pegar na vassoura e de me esquecer. De me perder pelo chão, e de avançar, lenta e ritmadamente.
Num balanço onde o corpo se esquece, e o pensamento se esvai.
Enquanto uns varrem, outros rodeiam-nos, quando nos vêm de máquina na mão.
Sorrindo afectuosamente, pedem para ser fotografados enquanto nos questionam de onde somos, como nos chamamos, porque é que estamos sozinhas.
São velhos, famílias, crianças, de toda a espécie que nos cercam e se debruçam sobre a máquina.
Quando se reconhecem, ou são reconhecidos pelos amigos, têm todos a mesma idade, no sorriso que se alarga até ao brilho do olhar.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Prashant Miranda
Um cheiro a hortelã pimenta.
Odor cheio, no teu cheiro,
que remoça.
Despeço-me de penas e tormentas,
ao viajar por hábitos esquecidos,
rotinas que se recriam,
sorrisos.
- Estás bem, amor?
- Estou

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

sábado, 1 de janeiro de 2011

John Surman

Lonjura

Pressentia o caos, na morna solidão.
Abraçava os dias, na secura da noite.
Entorpecia, na languidez dos sentidos.
Dilatava o ser, na lonjura das coisas.
Por fim, adormecia.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Prashant Miranda
Havia um cheiro ácido naqueles rostos cinza, com ar fétido.
Um lugar pejado de papéis, manuseados por quem não sabe o sabor da vida.
Uma coisa de cada vez, gritou uma mulher de carnes moles e olhar demente.
Respirou fundo.
Lá fora chovia e o ar sentia-se outro.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Bon Iver

Não havia ardósia, não havia papel, que emocionasse a cor.
Sentia frémitos de dor, os sentidos despertos.
O tempo e as memórias magoavam.
Aprendeu a andar e por fim, só se deslocava agarrada à cor,
sem convicção.
A irrealidade de que se rodeava dava-lhe alento; e, quando se levantava, levava consigo o torpor que lhe amortecia os sentidos.
Era sempre assim.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Desceu lentamente, a pensar nos filhos, enquanto sorvia o ar, e olhava pelos cães que a seguiam.
O coração voltava a bater, sem pressa.
Tinha estado com eles. Soube-lhe bem a ternura,
a disponibilidade, o amor.
Sentiu gratidão, este Natal.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

A casa

Era uma vez uma casa que tinha Sol lá dentro, chamava o sonho e afugentava o medo.
A casa fechou as portas e o seu poder desapareceu.
Corria um dia de chuva, quando as portas se abriram outra vez e as folhas acamadas foram deitadas longe; as torneiras voltaram a funcionar e as fechaduras oleadas entornavam sorrisos para dentro de casa, onde as panelas entonteciam de cheiros tépidos, e a tua voz soava tão bem.
Foi perto do Natal que isto aconteceu e ela dizia que a Primavera estava a chegar.