sábado, 22 de maio de 2010

Norbert Schwontkowski

O balde da praia

Estender a roupa sempre foi uma entrega difícil, suavizada pelo gesto de ir buscar o balde onde ponho as molas da roupa.
E entre uma mola e outra vou olhando de relance para os meninos coloridos no balde da praia.
Tempos dispersos.

Julião Sarmento

Salvatore Emblema

Maya Lin

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O Zé de Femia

O "" que a Fémia me enviou. e me abriu a pestana para a casa de chá Óchálá em Monchique . Muito agradecida, Femia.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Lugares

Quando era criança, em Tavira, chegavam a casa, por correio, livros que o meu pai, desembrulhava apressadamente, com os nossos olhos pregados na surpresa.
Quando li as vidas de Florence Nightingale e Albert Schweizer, fiquei a matutar com muita força, que queria ser missionária.
E via-me então em África, como Schweitzer, num hospital cheio de gente, vestida como as ilustrações que via vezes sem conta de Florence, que era a minha heroína.
Curioso, o hospital parecia-se muito com a casa do meu avô, no Lobito, que a minha avó me mostrava, quando ia buscar as fotografias que eu via, revia e fazia perguntas.
Nessas minhas viagens, agarrava nas bonecas que estavam doentes, e cobria-as para não terem frio. Por vezes, vou buscar esses momentos, quando me enrolo na cama e adormeço com a sensação do bem estar que então sentia.

Mais uma vez

Andrew Wyeth
Não tenho vontade de a ir buscar, nem de a ver assim.
Não sei como sinto o que sinto, mas sinto e é apaziguador.
Quis acreditar, que fazer parte do mundo povoado que ela habita seria uma solução.
Não foi.

Prazeres

Lembro-me bem dos cheiros e das cores da livraria e da papelaria da minha infância, na Covilhã.
Havia a Nacional, e uma papelaria pequena de que não me recordo o nome, talvez a Ideal da Beira, onde comprava as bonecas de papel para vestir e os bonecos em prancha que espalhavam no balcão de madeira, e que era de difícil escolha.
Ir à livraria Nacional era descer a rua a correr e entrar ofegante na loja, procurar as folhas de papel de lustre com o olhar, e encostada ao balcão, enquanto esperava pelo caderno que tinha pedido, sentir o cheiro das borrachas dos lápis e do papel.
As cores.
E os livros, havia Os Cinco, as Três Gémeas, a Colecção das Raparigas, e as revistas aos quadradinhos, como se dizia então, que nos incendiava a alma.
E as cadernetas, onde se colavam os cromos que vinham em saquetas, incógnitos.
Prazeres

Sigur Rós

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Maio

Giannis Mamoutzis
Hoje passei o dia inquieta.
Só ao fim da tarde, debaixo do telheiro, a sorver os cheiros melados e a gostar da madressilva, e das ervilhas de cheiro, encontrei conforto.
O jasmim tem tanta flor.
Maio é o mês do Monte Alto.
Sentada na cadeira de tabua a ler, abraçada pelo morno quente, que este fim de tarde deixou, abro um sorriso para os vizinhos que se despedem.
Fiz as pazes com Maio.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sortilégio

A minha casa tem um sortilégio,
como as águas que param,
o doce na escola, a vontade de ser,
o caminho certo.
É agora que mais me habitas.

Fere

Tenho um emprego miserável.
Lido com as frustrações das pessoas que todos os dias me procuram para "resolver" os problemas com que esta sociedade os brinda.
Entram de expressão tensa, cheiro ácido e pedras na mão. Depois, com as defesas em baixo, pretensas soluções à vista, momentaneamente aliviados, saem.
E é isto, todos os dias.
Mas fere.
Fere ouvir um homem chorar ao telefone. Fere ver uma mulher com os olhos a saltar, molhados, pedir-me para ligar aos pais para pôr uma pedra naquele assunto. Fere ver uma colega ir trabalhar cheia de antidepressivos porque para a semana vai de férias e não pode deixar os processos para os outros, que ainda resistem, tratarem.
Fere a arrogância, o despautério, a ignorância, a mentira.
Fere.

Sarah Blasko

Felice Varini

domingo, 16 de maio de 2010

Wolf Kahn

He maintains “Art is playing, dancing spontaneity...and once you free the unconscious, the expression of landscape is always inside you.”

Ida Kohlmeyer

Tarde lenta

John Howes
Ontem à tarde andei por Lagoa.
Enquanto deambulava pelas ruas e refreava o desejo de voltar para o Monte Alto, entrei numa rua estreita, e apercebi-me duma antiga pastelaria com fabrico próprio. Fui atraída pelas letras. Voltei para trás, comprei o jornal e entrei.
Estavam três senhoras sentadas, de cabelo arranjado, com os seus melhores adereços, ostensivamente a passarem a tarde, rodeadas por pratos já vazios a olharam-me as três por detrás dos óculos. Um olhar gasto com sorrisos alinhados, a disfarçarem os comentários que iam sendo activados ao ritmo das entradas que iam surgindo na tarde lenta.
Sentei-me a ler o jornal e a saborear um queque de noz que me trouxe o conforto de uma cozinha a funcionar.
Abstraí-me-escrevenhei, e quando dei por mim as senhoras já tinham saído.
Estava comigo.

Elliot Wilcox